sábado, 28 de janeiro de 2012

Beijos Perfeitos - Parte II

ATENÇÃO: romance yaoi (entre homens).
Riva, ex-esposa de Lion e atual esposa de Tygra, é o super-ego da Tríade de Bruxas. É chamada também "a velha". Adora o visual da Mokoto Kusanagi, de Ghost in the Shell.
"Mas que eu vou dar uma força às linhas tortas, ah, sim, eu vou."

Capítulo 3: Outro Cíaran

Enquanto isso, Bastet retorna ao Giroscópio. Escuta sons estranhos e gemidos. Temeu que Cíaran ou Riki estivessem prisioneiros de mutantes e se aproxima flutuando, com o Thundercomunicador na mão. Encontra Cíaran na despensa, bêbado como um gambá. Ele tenta esconder as garrafas de bebida vazias, mas não consegue:
- Bastet... não... por favor.... Vá embora...
- O que é isso, Cíaran?! O QUE É ISSO, PELO AMOR DE RÁ!!! – Bastet agarra o professor pelos braços. Seu cheiro é medonho, ele está mole como uma boneca de pano. A orsirosiana, apesar de pequena e magra, tinha imensa força, e o arrasta para fora de casa, até o chuveiro da piscina, jogando-o com força contra o box de tijolos de vidro. A água fria é recebida com espasmos, como se ele estivesse sendo açoitado:
- Não! NÃÃÃÃÃO! Párapeloamordedeus! Água geladaaaaa!!!!
- Quem é você para falar de Deus agora, seu gambá pernicioso! Que grande palhaçada é essa, hein, senhor-guardador da moral e dos bons costumes?
- Bastet...Eu... preciso contar uma coisa horrível...
                Cíaran revela, entre os soluços de um choro etílico, que Iason se apossara de seu corpo, e que ele e Riki haviam transado.
- Como pode isso, Bastet? Eu estava lá, na sala, numa boa. Ouvi uma música muito bonita e apareceu aquela luz, e eu achei.. sei lá... que era um anjo... E era ele, o tal Iason. Eu estava em mim, senti meu corpo se mover sem meu controle, senti o coração dele batendo agoniado e acelerado no lugar do meu, o desejo...crecendo, tudo! Uma casca consciente ro...çando, abraçando e be..beijando o Riki.  E o pior é que eu... eu....
- VOCÊ GOSTOU, CÍARAN! Você amou Riki junto com Iason, na mesma sintonia, e agora não quer admitir.
-EU NÃO POSSO, BASTET, EU NÃO POSSO! Que exemplo vou dar para os meus alunos? E os meus pais, o que vão pensar? A Elodie? Se ao menos a Ludmila estivesse aqui... Ela estaria vingada...
- Lud... quem?
                Cíaram está absolutamente constrangido. As palavras não saem e um grande nó na garganta torna até difícil respirar.
- Cíaran, faz tempo que você ensaia para dizer esse segredo. Solta logo, LIBERA ESSE FANTASMA! – Bastet chacoalha Cíaran com vigor, e sua voz fina e imperiosa “dava choques” nos ímpanos do professor.
- Arf...arf... – ele está vermelho, seus olhos marejam, suas costas e seus braços latejam e doem
                Bastet liga o chuveiro, aciona o chuveirinho e joga água no rosto do professor.
- Bebe água e fala, criatura! FAAAAAALA!
                Ele afasta o jato.
- E... e sempre fui o mais bonito da classe e do meu bairro. Conseguia tudo fácil. Festas na escola eram tranquilas, eu participava, organizava a turma. Nós zoavamos quem não era como nós, e ela apareceu nova na escola, gordinha e bocuda. O nome dela era Ludmila. Ela me desafiava abertamente, e eu a zoava abertamente. Os feiosos e nerds ficavam do lado dela. Nos dois anos seguintes de colégio, a sala ficou dividida entre o meu reino e o dela. Após a formatura ela sumiu e eu fui para a faculdade...
                Cíaran ensaia tentar desmaiar. Bastet o estapeia sem dó e liga o chuveiro. A água cai mais gelada.
- Lá na república, longe dos meus pais, tinha todas as facilidade que um cara bonito tem, com meninas, com meninos e tudo mais. Nós saíamos em grupo, havia uma parte isolada do campus, onde haviam árvores. Nós fumávamos maconha, tomávamos alucinógenos, muito, muito álcool, e ninguém era de ninguém. Eu sempre gostei de meninas, mas às vezes, nessas festas, aparecia alguém... diferente... propostas surgiam, e às vezes rolava uma grana.
- Você era um “gilete” porra-louca igual o Riki! Mew Dews!
- E..e ela apareceu de novo, agora linda,  e ela me deu muito ódio, pois ela me desprezava.
- O que aconteceu?
- Quando bati meus olhos nela, disse “Morena espetacular!” Ela tinha o cabelo escuro, encaracolado, no meio daquele monte de meninas loiras de cabelo escorrido. Tinha bunda, mas não tinha muito peito, enquanto aquelas vacas ficavam esfregando aquelas borrachas na minha cara. Tinha a pele branca, não era encardida de bronzeamento artificial, mas ela me reconheceu imediatamente.
“ Tu uma vez me falaste que nunca me namoraria, que nenhum homem me namoraria, pois eu era uma gorda nojenta. E agora tu vens cheio de intenções. Pois saibas que nunca permiti que homem humano nenhum tocasse esse corpo, pois todos eles são desprezíveis como tu és.”
                Cíaran chora compulsivamente. Bastet joga mais um pouco de água nele e o chacoalha:
- Continua, vamos! CONTINUA!
- Numa das festas da república, convenci uma amiga a embebedá-la e levá-la para o quarto. Ela sabia beber, não ficou tão dopada quanto eu queria. Quando cheguei no quarto, as duas estavam nas preliminares. Tirei a roupa, me deitei atrás dela e a agarrei... Chave de pescoço...
“- Já acabou as preliminares, Silvinha?
- Já, Ronron.
-Pode sair que te recompenso assim que terminar aqui.
L: O que esse pulha está fazendo aqui?!
- Vim te dar a melhor noite da sua vida!”
Q: Ah, ela me chamou de pulha... Qualquer outra teria dito “filho-da-puta”, mas ela me chamou de pulha!
B: Seu bastardo, ignorante, porco convertido! Não me diz que você violentou a garota!
Q: Eu era forte. Eu sou forte... Desgraçadamente forte ...e depois de tanta força, me deparo com aquela poça de sangue na cama...
“Seu miserável, isso não era para você! Nunca mereceste minha virtude! Desgraçado seja, que os céus arranquem seus olhos e você sinta a mesma dor e o mesmo nojo que eu senti!”
- E assim foi feito. Chakal arrancou meus olhos, me espancou até não querer mais, e nesse meio tempo me... fez... de cadela... DESGRAÇADO! AAAARRRGHHH!
                Bastet constatava que todo o horror voltava aos olhos do jovem professor, que estava preso numa ilusão de medos passados.
- Você não me contou que Chakal tinha abusado de você!
- E...eu reconheci todos os meus pecados, e por isso vivi em abstinência, até esse blondie imundo vir e fazer eu me sujar todo novamente.
- Cíaran... Por isso então... você está fazendo essa maldade toda com o Riki?
                Bastet perde a paciência e lhe dá mais tabefes. Sua voz fica ainda mais fina e irritante
- Você só está repetindo o mesmo erro do passado! Pessoas diferentes aparecem na sua vida para te ensinar a tolerância, e você quer estar com elas, mas sua mente lógica, forjada no preconceito e na busca da “raça perfeita”, nos pensamento torpe dos “iguais”, te conduziu a isso: um santo sem nome, feito de pau oco. Você é medíocre, falso, ridículo, cheio de piedade de si mesmo.
- Bastet, como você pode falar assim?! Eu estou sofrendo! EU NÃO QUERO SER USADO NOVAMENTE, BASTET! O que vai ser depois disso? O fantasma de Hitler? Uma abdução por Mumm-ra? Você acha isso certo? POIS EU NÃO!
- PATÉTICO! Eu te dei tudo de volta: seus olhos, seus cabelos e de quebra sua “virgindade”, quando eu tinha poderes para isso. E você, ao invés de evoluir e agradecer, fica aí “Tô sofreno, tô sofreno”, BAH! Quem sofreu foi a pobre da Ludmila. Quem está sofrendo é o Riki! Iason está em julgamento, e dessa vez ou ele volta para valer, ou não volta nunca mais, e ele é a única ligação que Riki tem com Amoi. Você aqui tem pai e mãe. Agora levante-se, seque-se e vá dormir, ISSO É UMA ORDEM!
                O professor estava branco como uma cera. Caminhou para o quarto, de cabeça baixa. Lá, tirou a roupa molhada, vestiu uma camiseta comprida e adormeceu. A orsirosiana estava mortificada com tudo que tinha ouvido. Cíaran era outra pessoa, e haviam tempestades fortíssimas por trás de sua aparente calma e sapiência.
                Keanu aparece. Ele toca a testa de sua rainha e descobre tudo o que aconteceu. Ela o abraça e depois lhe diz em Linguagem de Sinais:
-* Keanu, não foi a Sekhmeth quem separou seu corpo da sua cabeça.*
- * Quem foi, então?*
- * Não sei. Só sei que não foi ela, pois ela encarnou também.*
- * Seu trono! Sekhmeth vai querer tomá-lo!*
- * Se ainda houver algum trono em Mysrain quando voltarmos. Sekh está no páreo sim, mas se há um usurpador se passando por ela, preciso avisar meu pai e Hórus*
                Jagara passa no haras para buscar Riki. A primeira-dama thunderiana a recebe :
- Tygra e os meninos chegaram também, estão todos jogando truco. Estou preparando um jantar. Durma aqui conosco, amanhã levo vocês para o Giroscópio.
- Ah, que bom. Se é assim diga ao povo que fico!
                Após o jantar, Jagara comunica-se com o Giroscópio:
- Está tudo bem aí, Bassit?
- Jagara... ah, sim, está tudo bem...
- Tem certeza?
- Olha, na verdade não, mas está tudo sobre controle, e amanhã nós paramos para conversar. Vai ser melhor você e o Riki dormirem por aí, hoje, ok
Bastet ainda fica um bom tempo ao lado de Cíaran, que estava praticamente desmaiado. Ela chorava ao observar seu querido escriba e amigo, um rapaz tão novo, esmagado sob o peso de várias culpas, de medos infundados, com uma figura triste, descaracterizada. Sua sapiência e heroísmo haviam escorrido pelo ralo do chuveiro da piscina.   
- Sekhmeth não era boa bisca e sabia ser cruel quando queria. Por que ela se submeteria a isso? Reincarnação como humana borboleta e depois um estupro... Ah, eu não consigo entender essas coisas!
                Por segurança, Keanu, que tinha observado tudo de longe e não queria se intrometer, assumiu o turno de vigília daquela noite.

Capítulo 4: Conversa entre comadres

                Uma semana depois, Riva foi buscar Jagara no Giroscópio. Elas foram ao Shopping Thundera Mall para um brunch.
- Hum... Jagara. Isso que aconteceu entre os três, bem... nada é por acaso, né. Cíaran tem mediunidade por conta desse poder que a Bastet deu para ele, você sabe.
- Sei.
-Mediante o exposto, ele só vai se livrar disso se a Bastet o livrar da missão de escrever esses livros malditos.
- Não fale assim, Riva. Os livros sagrados são muito importantes para Thundera e para a Terra também.
- Você sabe também qual é o único Livro Sagrado, Jagara.
- Hunf. Vamos fazer o seguinte, a gente discute teologia outro dia. Vamos falar dos meninos.
- Ok. Mas eu avisei. Bem, Cíaran esá reprimindo ferozmente esse sentimento dentro dele, desde que reatou a amizade com o Riki. Se ele deixar fluir vai quebrar o pacto de castidade, vai ter uma relação homossexual – que foi exatamente o que ele quis castigar naquela menina que cativou o coração dele e que pode fazê-lo se sentir no lugar do Chakal - e, ainda por cima, saber que possivelmente Riki pode deixa-lo assim que o Iason chegar. Simples, não?
- Simples, não, complicado, minha amiga, muito complicado. – Jagara diz, mexendo o café na xícara com uma colherzinha.
- Como o Cíaran está?
- Muito estranho, parece que não aconteceu nada. Ele diz que não se lembra de nada, mas está "escrito na testa" dele que ele lembra.
- Se vocês não descobrissem, isso poderia resultar num suicídio. Deus nos livre. Eles já voltaram a se falar?
- Só bom dia, boa tarde e boa noite. Está um clima muito tenso no Giroscópio.
-E o Riki?
- Ah, tadinho, ele ora toda noite. Fazem 10 dias que ele sai para trabalhar de manhãzinha, volta antes de anoitecer. No drinks, no drugs, no sex, no flapping (masturbação).
- No flapping!?
- É. Você falou alguma coisa para ele?
- Ah, só disse para ele clarear a mente por uns dias, ficar longe de emoções baratas: revistas e filmes de sacanagem, mudar um pouco as companhias, o chefe dele é muito bacana, um pastor da nova igreja, e conversa bastante com ele.
- Alguém do trabalho sabe que ele é bissexual?
- Não. Eu o orientei a não ficar comentando sobre isso. Onde se faz o pão não se come a carne. Mas quanto a “flapear”, não, nunca o proibi de “alivar a tensão”.
- Oh, meu companheirinho de viagem está virando um homenzinho! – Jagara faz sinal como se apertasse as bochechas dele.
- Jagara, não se engane. O Riki está fazendo isso pelo Iason. Não acho que ele se torne um heterozinho, não.
- Ah, não, eu disse homenzinho por ele está criando juízo.
- Criando juízo por causa do Iason... Que amor, hein! Tenho medo dos efeitos disso. Será que é alguma forma muito forte da Síndrome de Estocolmo?
- Hahahaha... Não sei como te dizer isso, mas o Iason foi muito bom para ele. Sabe, Riva, nas condições de miséria em que eles viviam, aparecer um Dom ou Mestre foi como ganhar na loteria. Iason fazia todo aquele esquema sado-masoquista, mas o Riki ganhava boa bebida, boas roupas, comida farta, um cafofo próprio.
- Não justifica, Jagara. O garoto era menor de idade!
- Eu sei que não, Riva, mas essa era a condição no mundo deles. Depois o Iason o chamou para ser pet, e ele aceitou, e deveria ter aceitado as regras do Iason também. Por isso ele foi castigado.
- Torturado, você quer dizer. Foi espancado brutalmente, teve o braço quebrado foi e estuprado várias vezes.
- Caramba, ele já te contou isso tudo! Olha, Riva, o Iason colocou seu status e reputação em risco para manter o Riki longe das sessões com outros pets, e quase foi morto por causa dele, por ter-lhe posto um anel. Imagina, um blondie praticamente casado com um pet mongrel! É como um marajá brâmane querer casar com um pária! Depois levou um corno do Riki com o Guy, e quando esse volta, ainda lhe dá um emprego. E no final das contas, eles estavam tendo um relacionamento estável. Iason ama o Riki demais, senão teria apenas o tirado de Dhana Bah e largado o Guy para “dar um passeio com a ossuda”.
- Não acredito que você esteja defendendo o Iason!
- Riva, será que ele já não está sendo castigado o bastante? Iason, o membro mais perfeito da elite de Amoi, sem as duas pernas, enfraquecido por meses em cima de uma cama, longe de quem lhe queira bem? Quanto não seria importante que Riki ou Katze ou Raoul estivessem lá agora, conversando, acariciando suas mãos e o ajudando a sair do limbo?  Nem isso nós somos capazes de lhe conceder?
                Riva para e pensa um tempo.
- Bem, o que vai ser de Riki e Iason, só o tempo dirá, minha amiga. Riki foi lá em casa, nós conversamos bastante. Mas Cíaran está me deixando preocupada. Acho de extrema importância que você converse com Bastet para libertá-lo de tal incumbência, e mais ainda, que a convença a destruir esses livros malditos. Thundera e a Terra são lugares muito bonitos e importantes para a Criação e Providência Divinas. Não devem ficar a mercê de demônios e magias enclausuradas em capas de couro.
- Eu não posso fazer isso agora e você sabe disso.
- Deve haver algum outro meio, pelo menos outra pessoa mais preparada, quem sabe do círculo dos espíritas, para levar essa tarefa adiante. Não é todo mundo que encara numa boa liderar um exército de fantasmas condenados, você lembra como é que eu fiquei.
- Síndrome do pânico total. Mas você me deu uma boa idéia. Vou levar o Cíaran para conversar com Nathan. Tenho certeza que ele vai se sentir melhor.
- Quer que eu converse com a Bastet?
- Não. Vamos esperar. Vou revelar ao Cíaran o que o espera, e vamos conversar com esse líder espírita. Se isso não der certo, aí sim vou pedir sua ajuda.
- Seria tão bom que eles se acertassem. Quiçá até namorar. O Cíaran é um menino de ouro, o Riki é um doce de pessoa. Um se libertaria de tantas fobias, e o outro veria que existem outros caminhos, que o destino não está traçado.
- RIVA! – Jagara estava indignada – quanta bobagem você está falando!
- Não falei bobagem nenhuma, você sabe disso. Ele - ela aponta para o céu - escreve certo por linhas tortas, e vocês podem muito bem fazer sua guerrinha dos livros sem que Riki e Iason sejam um casal. Isso é, se ele sobreviver... Ah, se ele morrer, vocês já tem uma segunda opção de guardião, ou não vamos mais ter guerra?
- Riva, agora você está abusando da minha paciência! Vamos embora! Para mim chega! Você ensina as pessoas a rezar e escolher caminhos, mas tem horas que parece uma fanática. Socorro, viu!
                Riva sorri, sarcástica. Iria responder “Quem é a fanática, afinal?”, mas decidiu deixar Jagara pensar por si mesma. Mas que ela iria dar uma força às linhas tortas, ah, sim, ela iria.

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