sábado, 4 de fevereiro de 2012

Beijos Perfeitos - Parte III

ATENÇÃO: romance yaoi (entre homens).

A imagem é de "Trinity Messiah", mas a acabei vendo Cíaran e Riki nela, o que a torna perfeita para este momento.


Capítulo 5 – Armadilhas, Vendas e Traves
                Riki toma um banho antes de sair da obra. A água é fria, aliviando o calor do trabalho e do ambiente. Passa colônia...
- Hehe, comprei com o meu dinheiro!
                ...veste uma muda de roupa limpa. Coloca suas coisas na mochila e passa numa padaria antes de ir para casa.
 - Hoje é dia de jogo. Nova Thundera versus Brasil. Um clássico! Aposto que Cíaran vai querer ver o jogo comigo.
                Ele pensou em passar pelo colégio onde Cíaran lecionava, mas ele poderia tentar fugir. Foi direto para o Giroscópio. Arrumou os lanches e os refrigerantes numa bandeja, e esperou.
                Logo Cíaran chegou. Disse um boa noite seco e foi tomar banho. Quando saiu, foi para o escritório. Constatou que o fio do computador tinha sumido. Riki entra com a bandeja.
- Riki, onde está o fio do computador?
- Está apreendido.
                Cíaran se levanta da cadeira, nervoso.
- Bah, larga a mão de palhaçada, Riki! Eu tenho provas para corrigir, não posso...
                Antes que Cíaran cruzasse os braços, Riki joga a bandeja em cima dele. Cíaran, escriba prestativo, se sente obrigado a pegar a bandeja antes que ela se espatife, e cai sentado na cadeira. Riki se aproxima e o encara com um sorriso:
- Muito bem, professor. O negócio é o seguinte: hoje temos um jogo clássico na televisão, Brasil e Nova Thundera. Você está sendo convocado, como bom patriota que é, a assistir e torcer pelo seu time.
- As provas...
- Se você tiver provas pra corrigir, já convoquei a superpoderosa Emaus para corrigir elas pra você. Ela chega amanhã às 6 horas, às 6:30 está tudo corrigido, 7:00 nós pegamos o metrô. É só você dizer, e eu já mando mensagem para ela.
- P..por que você está fazendo isso?
- Por que você é meu amigo, e eu nunca quis te magoar, nem te usar de telecomunicador. Você sabe meus motivos. Mas, olha, eu nunca mais vou te forçar de novo. E vou pensar duas vezes se você me pedir.
                O jogo foi sofrível, com os dois times se poupando para a Copa Intergalática, mas Cíaran e Riki se divertiram muito:
R: VAI, PERNA_DE_PAU!
Q: TÁ USANDO SALTO PLATAFORMA, BICHONA!
R: SHITÔÔô! Pra fora da trave, filhodaputa!
Q: Essa gataiada não serve nem pra tamborim!
R: Que que é tamborim?
                Cíaran olhou para a cara de Riki. Riki ficou com aquele olhar maroto, e ambos caíram na gargalhada. No fim do jogo, estavam fazendo um campeonato de arroto básico...
R: BURP! Cerveja tem mais gás para fazer isso.
C: BUUUUUUUUURRRRRRRP! Acho que não.
                Mais gargalhadas.
C: Faz quanto tempo?
R: Do quê?
C: Que você não bebe.
R: Uns quatro dias. É gostoso e talz, mas no dia seguinte a mão fica boba, é ruim para fazer pintura nas paredes.
                Riki estava coma cabeça no colo de Cíaran. Este lhe afagava os cabelos.
C: Você está me surpreendendo, sabia!
R: Ah, que bobagem. Eu estou é feliz que a gente tenha voltado a conversar.
C: Eu também...
                Cíaran passa a mão no peito de Riki. Eles não conseguem desviar os olhos um do outro. Riki sente uma alegria quente invadindo seu peito, e tinha ímpetos de abraçar Cíaran, mas o medo de ser repelido o segurava. Cíaran, por sua vez, se sentia tragado pelos olhos escuros do mongrel, ele tinha grande vontade de mergulhar naqueles lagos, e beber o café daqueles lábios.
C: Riki...
R: Hum...
                Nesse momento chega Jagara, com as compras do mês:
- OLÁÁÁ, MENINOS, eu.... EPA! – Jagara estaca na porta – Hum...er... desculpa, não queria interromper nada não...
                Cíaran empurra Riki pelos ombros:
R: Ai, peraaí!!!
C: Sai, saai!! NÃO É NADA DISSO, JAGARA!
J: Fiquem à vontade, meninos, eu vou pela cozinha.
R: Cíaran!
                Cíaran olha para Riki com ódio:
C: Você criou uma armadilha para mim, seu...seu...
R: Não, espera!
 O professor sai correndo para o quarto, onde se tranca. Fica num canto, entre a cama e a parede, e chora, com soluços que fazem seu corpo chacoalhar inteiro:
- Eu não sou gay... Eu não sou gay..., que droga!!! Me deixem em paz.
                Ele puxa o edredon e dorme ali mesmo. Sonha com lagos escuros, de onde Riki emerge.
“ Isso é um sonho... Aqui eu não preciso ter medo... Se eu não gostar, posso simplesmente deixar e...”
                Riki se aproxima, e os dois estão muito próximos, um de frente para o outro.
“Você vai ficar muito triste se eu... não conseguir?”
“Não, eu vou entender.” – Riki falava meio triste.
                Eles se abraçaram, e o professor ainda se sentia desconfortável, gelado. Mas o beijo foi definitivo, e iniciou uma onda de calor deliciosa. Cíaran não conseguia parar, nem queria, e acordou de madrugada, suado e úmido:
- Putz, a Jagara vai me matar por ter sujado o edredon e.... RIKI! Mew deus, eu deixei ele para fora do quarto! Como eu sou egoísta!
                Cíaran destravou a porta do quarto e desceu as escadas rapidamente. Riki dormia na sala, no sofá. Estava encolhido e gelado.
- Riki, Riki! – Cíaran o chacoalha.
- Hunpf... me deixa em paz, preciso dormir... – e se vira para o encosto do sofá.
                Cíaran o vira de volta. Riki esperneia e tenta socá-lo. Cíaran joga seu corpo forte sobre o dele:
- Me solta, seu bosta!
- Shhh, escuta, me escuta, por favor... Me desculpa...
- DESCULPA!!!! Annnngh... – ele tenta se desvencilhar, em vão.
- Shhh, peloamordedeus! Me desculpa, eu te amo! Eu tô perdido, cara!
- É só isso que você sabe dizer? “Dexculpa, eu ti amú!”. SAI DE CIMA DE MIM, senão eu vou acordar TODO MUNDOOOOO! – Cíaran se afasta, eles se sentam - Nos últimos dias você me fez sentir um merda, um lixo, um imprestável. Agora vem com esse papinho! Ah, não, você gosta de menina. A porra de um mongrel burro como eu não serve para o Senhor Doutor Cíaran Hogarth! – ele bate na própria cabeça.
- Não, pára de falar isso! – Cíaran o recosta em seu peito, Riki ainda reluta – Você está gelado, deixa eu te esquentar... – puxa uma manta do outro sofá, o enrola e segura bem apertado.
                O mongrel começa a soluçar. Cíaran sente as lágrimas escorrerem quentes em seu peito.
- Por favor, por favor, me perdoa. Eu te amo tanto! Eu fui tão idiota, tão medroso...
- Egoísta!
- Um pulha, um bosta, um egoísta de marca maior.
                Cíaran cobre Riki de beijos. Sua cabeça, sua testa, seus olhos e sua boca. Pega-o no colo e o leva escada acima. No quarto eles se amam. O professor procurava ser cuidadoso, temia machucar o rapaz magro, e deixava-o guiar a transa. No entanto, Riki estava faminto e sedento, e logo os dois estavam num ritmo frenético. Os primeiros raios de sol entram pela janela. Os rapazes tomam banho juntos e depois descem para o café. Param na porta que levava à varanda, onde os outros habitantes do Giroscópio já estavam, e se encaram.
R: “Será que ele vai ter coragem?”
Q: “Ele acha que eu não tenho coragem.”
                Trocam sorrisos, Cíaran beija Riki na boca. Bastet vê tudo de seu lugar na mesa:
B: IIIIIRRRRCCCC!!! OH, NO! E eu não queria acreditar nos meus ouvidos!
                Eles entram de mãos dadas, sentam-se juntos. Jagara derruba seu copo de suco, Keanu os observa de soslaio.
B: Que novidade é essa?
C: Estamos juntos.
                Keanu bate palmas e diz em Libras:
-*Finalmente. Demorou para vocês assumirem. Vocês fizeram a casa tremer essa noite!*
B: Muito bonitinho e cute-cute, mas e o Iason, garotos?
                Riki arregala os olhos. Ele tinha conseguido esquecer Iason por um tempo. Ele se encolhe. Cíaran o abraça.
C: Nós não sabemos. O que eu sei é que estamos juntos, e se o Riki quiser voltar com o Iason, quando ele se recuperar, então eu vou partir para deixá-los livres.
                Todos estão boquiabertos.
C: As vendas e traves caíram, pessoal. E agora eu posso encarar o fato de que tudo tem um fim, e o que eu quero fazer é viver com esse rapaz e amá-lo máximo de tempo possível. É algo que devo não só a ele, mas a mim também.
                Jagara chora. Lembra-se de Panthro. Eles se casaram, tiveram uma filha, e o tempo deles acabou. O Thundercat seguiu sua vida, assumiu o trono de Thundera na ausência de Lion, mas continuou sendo seu melhor amigo. Ela se aproxima dos dois, beija suas testas e diz:
- Eu, Jagara, Sacerdotisa Thundercat, mantenedora do Giroscópio, abençoo vocês, Cíaran Hogarth e Emerich Mandisa, em nome de São Jaga e Bastet, e se essa pentelha não quiser, em nome de Sekhmeth, que vai abençoá-los só pra contrariar.
Bastet se levanta furiosa:
- Grrrr!!! Eu só abençoo vocês dois porque eu tenho certeza que Sekmeth não o faria, e vocês vão precisar de toda a benção.
                Ela se aproxima e beija a testa dos dois.
- Papai Rá os abençoe e, acima dele e dos branquelos, aqueles que os humanos chamam Deus-Pai.
                Keanu diz:
-*Eu não vou dar beijinho em vocês, não! Esqueçam! Contentem-se com charutos!*
                Todos riem. O ferreiro estende dois charutos novinhos. Riki cheira um deles:
R: Hummm, isso é bom!
C, falando baixinho: Ei, não precisa enfiar o charuto no nariz. Você consegue sentir o cheiro dessa distância aqui – ele mede um pouco mais de um palmo - Sinta.
Keanu lhe joga o cortador de charutos para Cíaran, que o abre com expertise. Abre o de Riki também. O thunderiano lhes passa o isqueiro de butano. Cíaran acende os dois charutos numa única chama e beija mais uma vez o mongrel antes de começarem a fumar. Riki traga, coisa que não se faz nessa situação:
R: Cuf...cuf...COFCOFCOF.... Eca! Que gosto ruim!
C: Calma, isso não é cigarro! Tem que levar a fumaça a boca, duas ou três puxadas para sentir o sabor.
R: Ah, igual maconha... Dá “barato” também?
C, vermelho de vergonha: No! Não tem barato nenhum! Isso é uma arte! Só se fuma um desse em ocasiões especiais, como hoje. – A vergonha já tinha se transformado em cumplicidade novamente.
R: Hummm... gostei.
Bastet: Eu vou sair daqui, senão essa fumaça vai empestear o meu cabelo. - ela sinaliza para Keanu - *Você sabe o que eu penso disso, né?*
K, debochado: *Relaxa. Eu te amo!*
B: Vambora, Jagara!
J: Ai, vamos, demorou. Essa fumaça horrorosa vai atacar minha rinite!
                Terminado o café, eles partem. Keanu lhes dá uma carona, deixando-os em seus devidos locais de trabalho antes de seguir para sua oficina.
                No começo da noite, Riki seguia pelas ruas e resolve se alongar mais no caminho, chegando a uma praça onde Cíaran provavelmente passaria, e sim, ele estava lá. Os ipês lançavam flores pelo caminho, e eles caminhavam abraçados, sentindo a brisa que passava pelas árvores e a paz do momento. Era o dia mais feliz de suas vidas. Cíaran e Riki tinham bons motivos para voltar para casa.

Jagara, Riki e Cíaran agradecem ,,,=^.^=,,,

sábado, 28 de janeiro de 2012

Beijos Perfeitos - Parte II

ATENÇÃO: romance yaoi (entre homens).
Riva, ex-esposa de Lion e atual esposa de Tygra, é o super-ego da Tríade de Bruxas. É chamada também "a velha". Adora o visual da Mokoto Kusanagi, de Ghost in the Shell.
"Mas que eu vou dar uma força às linhas tortas, ah, sim, eu vou."

Capítulo 3: Outro Cíaran

Enquanto isso, Bastet retorna ao Giroscópio. Escuta sons estranhos e gemidos. Temeu que Cíaran ou Riki estivessem prisioneiros de mutantes e se aproxima flutuando, com o Thundercomunicador na mão. Encontra Cíaran na despensa, bêbado como um gambá. Ele tenta esconder as garrafas de bebida vazias, mas não consegue:
- Bastet... não... por favor.... Vá embora...
- O que é isso, Cíaran?! O QUE É ISSO, PELO AMOR DE RÁ!!! – Bastet agarra o professor pelos braços. Seu cheiro é medonho, ele está mole como uma boneca de pano. A orsirosiana, apesar de pequena e magra, tinha imensa força, e o arrasta para fora de casa, até o chuveiro da piscina, jogando-o com força contra o box de tijolos de vidro. A água fria é recebida com espasmos, como se ele estivesse sendo açoitado:
- Não! NÃÃÃÃÃO! Párapeloamordedeus! Água geladaaaaa!!!!
- Quem é você para falar de Deus agora, seu gambá pernicioso! Que grande palhaçada é essa, hein, senhor-guardador da moral e dos bons costumes?
- Bastet...Eu... preciso contar uma coisa horrível...
                Cíaran revela, entre os soluços de um choro etílico, que Iason se apossara de seu corpo, e que ele e Riki haviam transado.
- Como pode isso, Bastet? Eu estava lá, na sala, numa boa. Ouvi uma música muito bonita e apareceu aquela luz, e eu achei.. sei lá... que era um anjo... E era ele, o tal Iason. Eu estava em mim, senti meu corpo se mover sem meu controle, senti o coração dele batendo agoniado e acelerado no lugar do meu, o desejo...crecendo, tudo! Uma casca consciente ro...çando, abraçando e be..beijando o Riki.  E o pior é que eu... eu....
- VOCÊ GOSTOU, CÍARAN! Você amou Riki junto com Iason, na mesma sintonia, e agora não quer admitir.
-EU NÃO POSSO, BASTET, EU NÃO POSSO! Que exemplo vou dar para os meus alunos? E os meus pais, o que vão pensar? A Elodie? Se ao menos a Ludmila estivesse aqui... Ela estaria vingada...
- Lud... quem?
                Cíaram está absolutamente constrangido. As palavras não saem e um grande nó na garganta torna até difícil respirar.
- Cíaran, faz tempo que você ensaia para dizer esse segredo. Solta logo, LIBERA ESSE FANTASMA! – Bastet chacoalha Cíaran com vigor, e sua voz fina e imperiosa “dava choques” nos ímpanos do professor.
- Arf...arf... – ele está vermelho, seus olhos marejam, suas costas e seus braços latejam e doem
                Bastet liga o chuveiro, aciona o chuveirinho e joga água no rosto do professor.
- Bebe água e fala, criatura! FAAAAAALA!
                Ele afasta o jato.
- E... e sempre fui o mais bonito da classe e do meu bairro. Conseguia tudo fácil. Festas na escola eram tranquilas, eu participava, organizava a turma. Nós zoavamos quem não era como nós, e ela apareceu nova na escola, gordinha e bocuda. O nome dela era Ludmila. Ela me desafiava abertamente, e eu a zoava abertamente. Os feiosos e nerds ficavam do lado dela. Nos dois anos seguintes de colégio, a sala ficou dividida entre o meu reino e o dela. Após a formatura ela sumiu e eu fui para a faculdade...
                Cíaran ensaia tentar desmaiar. Bastet o estapeia sem dó e liga o chuveiro. A água cai mais gelada.
- Lá na república, longe dos meus pais, tinha todas as facilidade que um cara bonito tem, com meninas, com meninos e tudo mais. Nós saíamos em grupo, havia uma parte isolada do campus, onde haviam árvores. Nós fumávamos maconha, tomávamos alucinógenos, muito, muito álcool, e ninguém era de ninguém. Eu sempre gostei de meninas, mas às vezes, nessas festas, aparecia alguém... diferente... propostas surgiam, e às vezes rolava uma grana.
- Você era um “gilete” porra-louca igual o Riki! Mew Dews!
- E..e ela apareceu de novo, agora linda,  e ela me deu muito ódio, pois ela me desprezava.
- O que aconteceu?
- Quando bati meus olhos nela, disse “Morena espetacular!” Ela tinha o cabelo escuro, encaracolado, no meio daquele monte de meninas loiras de cabelo escorrido. Tinha bunda, mas não tinha muito peito, enquanto aquelas vacas ficavam esfregando aquelas borrachas na minha cara. Tinha a pele branca, não era encardida de bronzeamento artificial, mas ela me reconheceu imediatamente.
“ Tu uma vez me falaste que nunca me namoraria, que nenhum homem me namoraria, pois eu era uma gorda nojenta. E agora tu vens cheio de intenções. Pois saibas que nunca permiti que homem humano nenhum tocasse esse corpo, pois todos eles são desprezíveis como tu és.”
                Cíaran chora compulsivamente. Bastet joga mais um pouco de água nele e o chacoalha:
- Continua, vamos! CONTINUA!
- Numa das festas da república, convenci uma amiga a embebedá-la e levá-la para o quarto. Ela sabia beber, não ficou tão dopada quanto eu queria. Quando cheguei no quarto, as duas estavam nas preliminares. Tirei a roupa, me deitei atrás dela e a agarrei... Chave de pescoço...
“- Já acabou as preliminares, Silvinha?
- Já, Ronron.
-Pode sair que te recompenso assim que terminar aqui.
L: O que esse pulha está fazendo aqui?!
- Vim te dar a melhor noite da sua vida!”
Q: Ah, ela me chamou de pulha... Qualquer outra teria dito “filho-da-puta”, mas ela me chamou de pulha!
B: Seu bastardo, ignorante, porco convertido! Não me diz que você violentou a garota!
Q: Eu era forte. Eu sou forte... Desgraçadamente forte ...e depois de tanta força, me deparo com aquela poça de sangue na cama...
“Seu miserável, isso não era para você! Nunca mereceste minha virtude! Desgraçado seja, que os céus arranquem seus olhos e você sinta a mesma dor e o mesmo nojo que eu senti!”
- E assim foi feito. Chakal arrancou meus olhos, me espancou até não querer mais, e nesse meio tempo me... fez... de cadela... DESGRAÇADO! AAAARRRGHHH!
                Bastet constatava que todo o horror voltava aos olhos do jovem professor, que estava preso numa ilusão de medos passados.
- Você não me contou que Chakal tinha abusado de você!
- E...eu reconheci todos os meus pecados, e por isso vivi em abstinência, até esse blondie imundo vir e fazer eu me sujar todo novamente.
- Cíaran... Por isso então... você está fazendo essa maldade toda com o Riki?
                Bastet perde a paciência e lhe dá mais tabefes. Sua voz fica ainda mais fina e irritante
- Você só está repetindo o mesmo erro do passado! Pessoas diferentes aparecem na sua vida para te ensinar a tolerância, e você quer estar com elas, mas sua mente lógica, forjada no preconceito e na busca da “raça perfeita”, nos pensamento torpe dos “iguais”, te conduziu a isso: um santo sem nome, feito de pau oco. Você é medíocre, falso, ridículo, cheio de piedade de si mesmo.
- Bastet, como você pode falar assim?! Eu estou sofrendo! EU NÃO QUERO SER USADO NOVAMENTE, BASTET! O que vai ser depois disso? O fantasma de Hitler? Uma abdução por Mumm-ra? Você acha isso certo? POIS EU NÃO!
- PATÉTICO! Eu te dei tudo de volta: seus olhos, seus cabelos e de quebra sua “virgindade”, quando eu tinha poderes para isso. E você, ao invés de evoluir e agradecer, fica aí “Tô sofreno, tô sofreno”, BAH! Quem sofreu foi a pobre da Ludmila. Quem está sofrendo é o Riki! Iason está em julgamento, e dessa vez ou ele volta para valer, ou não volta nunca mais, e ele é a única ligação que Riki tem com Amoi. Você aqui tem pai e mãe. Agora levante-se, seque-se e vá dormir, ISSO É UMA ORDEM!
                O professor estava branco como uma cera. Caminhou para o quarto, de cabeça baixa. Lá, tirou a roupa molhada, vestiu uma camiseta comprida e adormeceu. A orsirosiana estava mortificada com tudo que tinha ouvido. Cíaran era outra pessoa, e haviam tempestades fortíssimas por trás de sua aparente calma e sapiência.
                Keanu aparece. Ele toca a testa de sua rainha e descobre tudo o que aconteceu. Ela o abraça e depois lhe diz em Linguagem de Sinais:
-* Keanu, não foi a Sekhmeth quem separou seu corpo da sua cabeça.*
- * Quem foi, então?*
- * Não sei. Só sei que não foi ela, pois ela encarnou também.*
- * Seu trono! Sekhmeth vai querer tomá-lo!*
- * Se ainda houver algum trono em Mysrain quando voltarmos. Sekh está no páreo sim, mas se há um usurpador se passando por ela, preciso avisar meu pai e Hórus*
                Jagara passa no haras para buscar Riki. A primeira-dama thunderiana a recebe :
- Tygra e os meninos chegaram também, estão todos jogando truco. Estou preparando um jantar. Durma aqui conosco, amanhã levo vocês para o Giroscópio.
- Ah, que bom. Se é assim diga ao povo que fico!
                Após o jantar, Jagara comunica-se com o Giroscópio:
- Está tudo bem aí, Bassit?
- Jagara... ah, sim, está tudo bem...
- Tem certeza?
- Olha, na verdade não, mas está tudo sobre controle, e amanhã nós paramos para conversar. Vai ser melhor você e o Riki dormirem por aí, hoje, ok
Bastet ainda fica um bom tempo ao lado de Cíaran, que estava praticamente desmaiado. Ela chorava ao observar seu querido escriba e amigo, um rapaz tão novo, esmagado sob o peso de várias culpas, de medos infundados, com uma figura triste, descaracterizada. Sua sapiência e heroísmo haviam escorrido pelo ralo do chuveiro da piscina.   
- Sekhmeth não era boa bisca e sabia ser cruel quando queria. Por que ela se submeteria a isso? Reincarnação como humana borboleta e depois um estupro... Ah, eu não consigo entender essas coisas!
                Por segurança, Keanu, que tinha observado tudo de longe e não queria se intrometer, assumiu o turno de vigília daquela noite.

Capítulo 4: Conversa entre comadres

                Uma semana depois, Riva foi buscar Jagara no Giroscópio. Elas foram ao Shopping Thundera Mall para um brunch.
- Hum... Jagara. Isso que aconteceu entre os três, bem... nada é por acaso, né. Cíaran tem mediunidade por conta desse poder que a Bastet deu para ele, você sabe.
- Sei.
-Mediante o exposto, ele só vai se livrar disso se a Bastet o livrar da missão de escrever esses livros malditos.
- Não fale assim, Riva. Os livros sagrados são muito importantes para Thundera e para a Terra também.
- Você sabe também qual é o único Livro Sagrado, Jagara.
- Hunf. Vamos fazer o seguinte, a gente discute teologia outro dia. Vamos falar dos meninos.
- Ok. Mas eu avisei. Bem, Cíaran esá reprimindo ferozmente esse sentimento dentro dele, desde que reatou a amizade com o Riki. Se ele deixar fluir vai quebrar o pacto de castidade, vai ter uma relação homossexual – que foi exatamente o que ele quis castigar naquela menina que cativou o coração dele e que pode fazê-lo se sentir no lugar do Chakal - e, ainda por cima, saber que possivelmente Riki pode deixa-lo assim que o Iason chegar. Simples, não?
- Simples, não, complicado, minha amiga, muito complicado. – Jagara diz, mexendo o café na xícara com uma colherzinha.
- Como o Cíaran está?
- Muito estranho, parece que não aconteceu nada. Ele diz que não se lembra de nada, mas está "escrito na testa" dele que ele lembra.
- Se vocês não descobrissem, isso poderia resultar num suicídio. Deus nos livre. Eles já voltaram a se falar?
- Só bom dia, boa tarde e boa noite. Está um clima muito tenso no Giroscópio.
-E o Riki?
- Ah, tadinho, ele ora toda noite. Fazem 10 dias que ele sai para trabalhar de manhãzinha, volta antes de anoitecer. No drinks, no drugs, no sex, no flapping (masturbação).
- No flapping!?
- É. Você falou alguma coisa para ele?
- Ah, só disse para ele clarear a mente por uns dias, ficar longe de emoções baratas: revistas e filmes de sacanagem, mudar um pouco as companhias, o chefe dele é muito bacana, um pastor da nova igreja, e conversa bastante com ele.
- Alguém do trabalho sabe que ele é bissexual?
- Não. Eu o orientei a não ficar comentando sobre isso. Onde se faz o pão não se come a carne. Mas quanto a “flapear”, não, nunca o proibi de “alivar a tensão”.
- Oh, meu companheirinho de viagem está virando um homenzinho! – Jagara faz sinal como se apertasse as bochechas dele.
- Jagara, não se engane. O Riki está fazendo isso pelo Iason. Não acho que ele se torne um heterozinho, não.
- Ah, não, eu disse homenzinho por ele está criando juízo.
- Criando juízo por causa do Iason... Que amor, hein! Tenho medo dos efeitos disso. Será que é alguma forma muito forte da Síndrome de Estocolmo?
- Hahahaha... Não sei como te dizer isso, mas o Iason foi muito bom para ele. Sabe, Riva, nas condições de miséria em que eles viviam, aparecer um Dom ou Mestre foi como ganhar na loteria. Iason fazia todo aquele esquema sado-masoquista, mas o Riki ganhava boa bebida, boas roupas, comida farta, um cafofo próprio.
- Não justifica, Jagara. O garoto era menor de idade!
- Eu sei que não, Riva, mas essa era a condição no mundo deles. Depois o Iason o chamou para ser pet, e ele aceitou, e deveria ter aceitado as regras do Iason também. Por isso ele foi castigado.
- Torturado, você quer dizer. Foi espancado brutalmente, teve o braço quebrado foi e estuprado várias vezes.
- Caramba, ele já te contou isso tudo! Olha, Riva, o Iason colocou seu status e reputação em risco para manter o Riki longe das sessões com outros pets, e quase foi morto por causa dele, por ter-lhe posto um anel. Imagina, um blondie praticamente casado com um pet mongrel! É como um marajá brâmane querer casar com um pária! Depois levou um corno do Riki com o Guy, e quando esse volta, ainda lhe dá um emprego. E no final das contas, eles estavam tendo um relacionamento estável. Iason ama o Riki demais, senão teria apenas o tirado de Dhana Bah e largado o Guy para “dar um passeio com a ossuda”.
- Não acredito que você esteja defendendo o Iason!
- Riva, será que ele já não está sendo castigado o bastante? Iason, o membro mais perfeito da elite de Amoi, sem as duas pernas, enfraquecido por meses em cima de uma cama, longe de quem lhe queira bem? Quanto não seria importante que Riki ou Katze ou Raoul estivessem lá agora, conversando, acariciando suas mãos e o ajudando a sair do limbo?  Nem isso nós somos capazes de lhe conceder?
                Riva para e pensa um tempo.
- Bem, o que vai ser de Riki e Iason, só o tempo dirá, minha amiga. Riki foi lá em casa, nós conversamos bastante. Mas Cíaran está me deixando preocupada. Acho de extrema importância que você converse com Bastet para libertá-lo de tal incumbência, e mais ainda, que a convença a destruir esses livros malditos. Thundera e a Terra são lugares muito bonitos e importantes para a Criação e Providência Divinas. Não devem ficar a mercê de demônios e magias enclausuradas em capas de couro.
- Eu não posso fazer isso agora e você sabe disso.
- Deve haver algum outro meio, pelo menos outra pessoa mais preparada, quem sabe do círculo dos espíritas, para levar essa tarefa adiante. Não é todo mundo que encara numa boa liderar um exército de fantasmas condenados, você lembra como é que eu fiquei.
- Síndrome do pânico total. Mas você me deu uma boa idéia. Vou levar o Cíaran para conversar com Nathan. Tenho certeza que ele vai se sentir melhor.
- Quer que eu converse com a Bastet?
- Não. Vamos esperar. Vou revelar ao Cíaran o que o espera, e vamos conversar com esse líder espírita. Se isso não der certo, aí sim vou pedir sua ajuda.
- Seria tão bom que eles se acertassem. Quiçá até namorar. O Cíaran é um menino de ouro, o Riki é um doce de pessoa. Um se libertaria de tantas fobias, e o outro veria que existem outros caminhos, que o destino não está traçado.
- RIVA! – Jagara estava indignada – quanta bobagem você está falando!
- Não falei bobagem nenhuma, você sabe disso. Ele - ela aponta para o céu - escreve certo por linhas tortas, e vocês podem muito bem fazer sua guerrinha dos livros sem que Riki e Iason sejam um casal. Isso é, se ele sobreviver... Ah, se ele morrer, vocês já tem uma segunda opção de guardião, ou não vamos mais ter guerra?
- Riva, agora você está abusando da minha paciência! Vamos embora! Para mim chega! Você ensina as pessoas a rezar e escolher caminhos, mas tem horas que parece uma fanática. Socorro, viu!
                Riva sorri, sarcástica. Iria responder “Quem é a fanática, afinal?”, mas decidiu deixar Jagara pensar por si mesma. Mas que ela iria dar uma força às linhas tortas, ah, sim, ela iria.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Beijos Perfeitos - Parte I -

Hora de movimentar esse blog com uma histórinha bacana...

ATENÇÃO: romance yaoi (entre homens).
Deus é mencionado, mas a história registra minhas opiniões e crenças, não tem haver com os dogmas da doutrina cristã. Se esse tipo de leitura te ofende, va para outro site.

I stood there beside myself,
Thinking hard about the weather
Then came by a friend of mine
Suggested we go out together
Then I knew it from the start:
This friend of mine would fall apart
Pretending not to see his gun,
I said "let's go out and have some fun"
I know, you know, we believe in a land of love
I know, you know, we believe in a land of love
New Order - Perfect Kiss



Prefácio / Situando
               Essa história começa depois de "Blondie Bomb" e antes de "Sonho de Natal".

Capítulo 1: O dia seguinte

                O que aconteceu na tarde-noite do dia anterior, nem Riki, nem Cíaran poderiam explicar. Parecia um sonho, com Iason pedindo para que ele o perdoasse, e depois o tocando, ambos consumando o ato. Riki sentia que havia sido real em seu próprio corpo, nas marcas, nas pequenas dores, nas manchas que haviam ficado na roupa de cama, mas Cíaran negava tudo veementemente, enquanto eles caminhavam pelas alamedas jardinadas do Giroscópio pela manhã.
- Eu não acredito, isso só deve ser piração sua!
- Não foi, Cíaran, você encarnou o Iason, nós estivemos juntos, foi tudo muito real! Por favor, faça de novo!
- Tá louco! Isso foi mais uma viagem da sua cabeça drogada. Nunca, tá me ouvindo? Eu nunca vou ... urgh... tocar em você, nem mesmo servir de “cavalo” para o seu namorado.
                Riki, desesperado, abraça Cíaran.
- Por favor...eu não aguento mais essa dor no meu peito! Eu preciso falar com ele, saber quando ele vai voltar!
                Riki não era de chorar, nem de pedir por favor.  Ele estava ali grudado às costas do jovem professor, frágil como uma menina que acabara de perder seu ursinho de pelúcia. E aquilo irritou Cíaran profundamente, que o afastou com um safanão.
- Vai viver sua vida, garoto! Deixe os mortos descansarem. – E se afasta rapidamente, entrando no elevador que conduzia à sala de estar.
                O mongrel corre para o portão. Sai pelas ruas, que passam muito rápido. Enxuga as lágrimas do rosto e logo se depara com um bar. O atendente gordo já sabe o que ele quer. Prepara o rabo-de-galo, e coloca o copo cheio na frente do rapaz com uma sonora batida na madeira do balcão.
                O vermelho da bebida o faz lembrar de uma das vezes que Iason brigara com ele. Um safanão também, mas dessa vez Riki havia sido projetado contra uma parede. O resultado fora um supercílio aberto, vazando sangue em seu olho.  Iason chamara o médico, e depois passou a tarde inteira o cobrindo de mimos e carinhos.
-“ Se me deres o perdão, trarás muita paz a alma deste condenado”.
- Quem deve pedir perdão sou eu.
                Riki deixou o dinheiro e o copo cheio sobre o balcão, e procurou Jagara.
- Você conhece todo mundo nesse planeta miserável. Deve ter alguém que me dê um emprego.
                Jagara o puxou para si e lhe afagou os cabelos e o rosto. O que atormentava seu querido cúmplice.
- Sente aqui comigo – ela o conduz para uma poltrona giratória, senta na outra, eles estão de frente – Você está bem, meu companheiro de viagem?
               Riki frequetemente acompanhava Jagara ao Centro Comercial de Thundera, onde ela se apresentava na Fortaleza dos Gatos e fazia compras.
- Jagara, por favor, eu não quero falar sobre ... Olha, eu quero saber quem pode me dar um emprego, para eu ocupar minha cabeça e não ficar só pensando no Iason o dia inteiro.
- Você sabe que eu prefiro que você estude, não é?
- É, Jags, mas eu quero ganhar algum dinheiro. Preciso me manter ocupado.
- Hummm... Tem algumas pessoas bacanas da colônia humana. Vou falar de você para eles.
- Mas os thunderianos não pagam melhor?
- Pagar, eles pagam, mas são meio xaropes. Pegue alguma experiência registrada com os humanos, depois você alça vôos mais altos.
Riki foi para o jardim cuidar das orquídeas enquanto Jagara ligava para umas pessoas. Da janela ela observava, esperando que ele conversasse com as flores, como costumava fazer, mas dessa vez ele estava muito quieto, sentindo a pior tristeza que alguém poderia sentir: a solidão, sem a máscara feliz das bebidas ou das drogas.
Eis que surge Bastet, sempre absurdamente alegre desde que Keanu ressurgira em sua vida:
- Rikiiiiii! – Ela o abraça. Ele reluta. – Ah, vai, meu amigo, abre essa guarda e fala com a sua Bastetzinha.
- Não sei como uma pirada como você pode ajudar alguém numa hora dessa.
Bastet mostra a língua para ele e diz:
- Oras, quer ajuda melhor que te emprestar meus ouvidos.
                Riki contou tudo o que tinha acontecido para Bastet, que ficou boquiaberta:
- Nuss, o Cíaran manifestando a mediunidade dele! Geeeeenteeeeem!!! E...e... recebendo uma encarnação temporária. As coisas estão acontecendo rápido demais!
-O que você acha, Bastet?
- Olha, Riki, sinceramente, o Iason está numa situação muito difícil. Se ele veio te pedir perdão, ele deve estar em julgamento.
- Ele... vai morrer ?!
- Acabei de falar com Hórus, meu irmão e médico que está cuidando do Iaia, e ele me disse que a situação dele é estável, o corpo dele está funcionando bem, mas ele não voltou do coma ainda.
- O que eu faço, Bastet? Não tem "milagre" para atravessar o Portão Estrelar, não tenho dinheiro para pegar um comboio para Mysraiyn, e mesmo que tivesse, levaria meses para chegar lá...
- Riki, na boa, vai vivendo sua vida. Começe a criar raízes, você não está sozinho. E se você ama tanto o Iason, reze, meu querido, reze.
- Rezar para quem? Júpiter é uma alien igual a você? Existe algum deus de verdade?
- Olha, eu vou te contar uma coisa, mas você vai me prometer segredo, tá. Er... não é meu papai, Rá, infelizmente... – Bastet faz uma pausa, lembrando–se de fatos muito antigos – Tem uma humana, chamada Riva, que sabe muita coisa sobre O Criador, e eu sei que ela não vai te recriminar por você ser bissexual. Procure ela nesse endereço.
- Bastet, me fala mais. Eu sei que você sabe.
- Eu já falei demais. “Lambdas” pra você.
Riki procurou Riva naquela tarde, Bastet já havia falado com ela.
- Já vou te avisando, rapazinho. Posso te explicar tudo a respeito de Papai-do-Céu, mas não trago a pessoa amada em três dias. Você quer continuar?
- Affe, como você é debochada!
- Só vou direto ao ponto. Nosso tempo é precioso.
                Riva era ex-esposa de Lion-o, Rei de Thundera, e agora era esposa do Primeiro Ministro Tygra. Morava numa casa de pedra e madeira no campo. Tinha um haras com cavalos, muares e dindis (um tipo de equino de thundera, com patas no lugar de cascos). Estava numa das baias, trocando a forração, enquanto conversava com Riki:
 - Você pode simplesmente chamá-lo de DEUS, apesar de seus muitos nomes. Ele é único, o criador de toda a vida em todo universo. É um pai amoroso e acolhedor, e seu filho deu a vida para nos salvar do pecado, do mal eterno. Todas as coisas que acontecem hoje em dia, essa degradação de guerras entre planetas, tudo indica que o Messias está prestes a reaparecer, e selar a existência desse Universo com a Paz Eterna.
- No que isso pode me ajudar? Acho que Bastet já te passou toda a minha “capivara”.
* "Capivara" é a gíria para a ficha de atos criminosos de alguém. Lógico, Riki não cometeu nenhum crime em Thundera, mas estava falando de seu passado recente.
- Ah, nós temos conversado bastante sobre você, confesso, e estava muito curiosa para te conhecer pessoalmente.
                Riki ficou vermelho de vergonha. Riva deixa o garfão de lado por um tempo.
- Como eu te disse, eu não tenho poder para trazer o Iason. Deus tem, mas será que é isso mesmo que deve acontecer?
- Lógico que sim! Nós íamos começar a viver bem agora, em Thundera, longe de Amoi, de Raoul, de Guy, de Mimea. Só nós dois. E agora ele não volta, eu não entendo por que! A Bastet fala de um julgamento, mas que julgamento tão comprido é esse!? Em Amoi, quem era preso já era jugado, já apanhava e já morria, não passava de uma semana! – Eles param um minuto, ele põe as mãos na cabeça - Eu amo ele. Não passo um dia sem pensar nele.
- Eu penso num cara há mais de 20 anos. Não é tão frequente quanto você, mas pelo menos uma vez por mês me pego lembrando dos bons momentos, imaginado como seria se tivéssemos ficado juntos, mas não creio que isso seja  amor, mas talvez um tipo de mania...
- EU AMO O IASON, ISSO NÃO É MANIA! VOCÊ PODE ME AJUDAR OU NÃO?
                Riva aproximou-se de Riki e disse:
- Posso te dar um norte para VOCÊ se ajudar.
                Ela se afasta e indica a saída das baias
- Acho melhor você ir para casa e pensar direito. Esse tipo de situação não pode ser resolvido com um passe de mágica.
                A dispensa dela faz Riki ficar sem chão. Ele engole em seco. Precisava fazer aquilo.
- Por...favor...me desculpe. Eu estou desesperado, e só queria que você me ensinasse a rezar.


Capítulo 2: Um olhar estranho


Bastet e Keanu iriam assistir filmes até tarde no canal pago. Jagara iria acordar cedo no dia seguinte. Deu boa noite ao casal e passou no quarto de Cíaran e Riki. Encontrou o mongrel ajoelhado ao lado da cama, mãos unidas, cabeça baixa:
- ... um obrigado especial pela Jagara, que virou nossa mãezona. E o mais importante de tudo: por favor, Senhor, ajude o Iason a sair do coma. Você lê meu coração, sabe o quanto o amo. Obrigado, Amém.
Cíaran chega e passa como um vento, quase derruba Jagara.
J: UÊPAAAA!!!!  Devagar com o andor que o leão é de barro!
R: Faz quanto tempo que vocês estão aí !?
Q: Tempo demais, vou dormir no escritório, antes que esse maluco faça algum vudu para eu encarnar o macho dele. - Cíaran pega o cobertor e seu travesseiro.
R: VAI TOMAR NO SEU CÚ, CÍARAN!!! – Riki põe a mão na boca e diz baixinho – Desculpa, Senhor! – faz o sinal rapidinho encerrando a oração e se prepara para ouvir um monte.
Q: Que eu saiba, quem gosta de sodomia aqui é você. E nem mil orações vão te salvar! FUI!
                Jagara senta na beira da cama. Riki está tremendo de raiva. Ela o abraça:
- Tá sofrendo “bagarai”, né?
- Tô tão cansado, Jagara. Minha cabeça está girando.
- Sai desse chão gelado e vem para a cama.
Riki obedece. Deita na cama, com a cabeça recostada numa das pernas de Jagara. Ela lhe afaga os cabelos, e enxuga as lágrimas que correm pelo rosto dele.
- Por que ele faz isso? Será que eu me tornei tão feio e sujo assim?
- Riki, está sendo difícil para o Cíaran também. Ele guarda muitas coisas e não quer falar com a gente... ainda... Dê um tempo para ele. E você não tem nada de feio ou sujo, não! Você é o garoto mais lindo e mais engraçado que eu já conheci. E não percebeu ainda, mas tem um coração de ouro.
- Amo tanto você, sabia? Minha amiga e mãezona.
- Falei com um amigo, acho que amanhã você começa a trabalhar.
Riki se animou:
- Jura! Ah, que bom! Obrigado, Deus!
- Gostou de conversar com a Riva?
- Ela é meio brava, mas me explicou muita coisa.
- Quer me contar?
- Sim.
                Conversaram até ele dormir. No dia seguinte, o rapaz decidiu tentar conversar com Cíaran.
- Cíaran, me desculpa aí, vai. Eu não queria te ofender, mas foi mesmo um sonho que me impressionou, e você sabe como eu me sinto em relação ao...
- Iason, Iason, IASON! Isso parece um mantra que você fica entoando no ouvido de todos nós. Larga a mão de ser chato!
- Tá bom, você pode me desculpar? – diz, colocando-lhe a mão no ombro.
                Cíaran faz silêncio. Eles se olham. O professor olha para baixo, seus olhos incondicionalmente olham suas partes e as de Riki. Cíaram desvia os olhos um pouco, mostrando um olhar estranho e perdido, esboçando meio sorriso. Passa a mão nos olhos, como que para apagar a lembrança, e murmura:
- Isso é... inconcebível... o maior dos pecados, uma abominação e totalmente contra as leis da igreja. Como você pode... como... pode... BAH!!!
                O professor tinha ímpetos de agarrar Riki e jogá-lo para longe, mas conteve-se, virou subitamente e fugiu. O mongrel fica parado, ali, sem reação.
- A gente estava tão bem. Por que isso tinha que acontecer? O Iason deveria ter acordado direto ao invés de fazer essa bagunça na minha vida. Agora o Cíaran me odeia. Shitôôôô....
                Jagara chama. Ela leva Riki para um pátio de obras na colônia humana e o apresenta a um construtor. Imediatamente ele começa a trabalhar. Em Ceres, às vezes Riki era chamado para ajudar nesse tipo de serviço, mas era tudo muito precário. Seu chefe lhe explicou que seria interessante aprender com os outros pedreiros como se trabalhava antes de fazer qualquer obra, uma vez que havia o jeito certo de fazer as coisas.
                Era um grupo muito unido e engraçado, e nos dias que se seguiram, lhe deram o apelido de “grilo”. A maior dificuldade do mongrel não foi aprender a misturar massas, pintar, nada disso, mas sentia-se incomodado com as luvas, o capacete e os óculos. O mestre de obras logo se afeiçoou ao rapaz, visto que ele tinha o olhar muito bom para esquadrinhar as paredes, e era muito caprichoso com a pintura e passou a lhe dar tarefas mais importantes.
                De volta ao dia da contratação, ao final do serviço , Riki resolve passar na casa de Riva. O que Cíaran lhe disse o havia magoado muito:
- Tem alguma coisa errada nisso... Cíaran está num modo paranoico. Parece que está usando os preceitos da igreja para esconder alguma coisa. Você sabe se ele é gay ou bissexual?
- Acho que não. Não sei, ele não se abre muito. E ele teve aquela paixão doida pela Elodie, seguia ela em todas as redes sociais.
             
               Riki se encolhe.
- Seria eu o errado... por escolher ser como sou?
               Riva para de escovar a crina de um muar, entrega as escovas para Riki e conduz o bicho para sua baia. Enquanto isso, explica outras coisas.
- Olha, Riki, as religiões humanas que vieram para Thundera não aprovam a homossexualidade pois, por muito tempo ela esteve associada à promiscuidade, à paixão carnal desenfreada e aos vícios. Era prática comum entre os romanos, que perserguiram os primeiros cristãos. Após a Nova Reforma, as igrejas passaram não aprovar também os relacionamentos inter-espécies. Só que eu não considero que meu casamento com Tygra seja pecaminoso, muito pelo contrário. Nós criamos e educamos nossos filhos para terem amor por Thundera, para serem cidadãos e constituírem família, da mesma forma que muitos casais gays e héteros fazem.
               Ela fecha a baia para o muar poder descansar. Senta-se num banco de madeira e puxa outro para mongrel. Oferece uma caixinha:
- Riva, eu estou tentando parar de fumar!
- É chiclete.
- Ah... desculpa, não tinha percebido..
- Veja! Você pode escolher seus caminhos, Riki. Cíaran, quando estava calmo, já te disse isso e é a maior verdade do mundo! Você não veio aqui à toa. Algo aqui dentro – ela aponta o coração dele - está buscando uma evolução, um amadurecimento. Tudo nessa vida tem um tempo. Há tempos de sofrimento e bonança, há tempos de curtir a “doidado” e tempo de botar a cabeça no lugar, tempo de se divertir e tempo de trabalhar. Conforme você se desenvolve, vai aprendendo a distinguir uma coisa da outra. Naturalmente seu coração vai acabar repelindo os caminhos de perdição, e escolhendo um emprego bacana, estudar algo que você goste, um relacionamento mais estável...
- Com uma mulher...
- Ou com um homem, não importa. Para mim não importa quem você escolhe, mas o tipo de relacionamento que você quer ter com essa pessoa. Um relacionamento gostoso, que te faça querer voltar para casa toda noite após um dia de trabalho, algo que traga paz e alegria para seu coração, acredito que seja o ideal.Você acredita que se o Iason voltar, você vai ter um relacionamento assim?
                Riki levanta, chega perto de uma baia e afaga o focinho de outro muar.
- Queria tanto saber isso! - olhos cheio de lágrimas de novo.
- Vem, Bauhaus! - Riva abre a porta da baia e o bicho a segue manso e doce, parando por si só ao lado de uma mureta, e a primeira-dama começa a escová-lo. Ela decide mudar de assunto.
- Tentando parar de fumar, né? Sabe, Riki, se ficar uma “coisa” tentando te controlar ou te desviar, resista sem resistir. Seja um guerreiro pacífico.
- Como assim?
- Deixe a “coisa” falar. Ela vai falar, esbravejar, te cutucar, pode até te machucar. É igual uma pessoa chata falando. E você fica bem na sua, e ela cansa e vai embora.  Quer que eu te ensine um tipo de respiração para relaxar e te ajudar a resistir?
- Pode ser...
- Então pegue essa outra escova e me ajude. Bauhaus vai ficar muito feliz de ter duas pessoas escovando o pêlo dele. O método basicamente é o seguinte: respiração abdominal, ou com a barriga. Costumamos respirar “Com os ombros” e essa é a respiração do caçador, muito útil  quando a situação é fugir ou lutar, mas extremamente estressante e...
                 Depois de cuidar do muar Bauhaus, Riva levou Riki de volta oa Giroscópio. Em seu quarto ele deitou na cama e começou a técnica Yoganidra. Num determinado momento do relaxamento, ele deveria imaginar que um anjo o acolheria em seus braços e o conduziria pelo céu. Nem preciso dizer que esse anjo era um blondie cujos olhos tinham um tom de azul maravilhoso. Eles estavam juntos de novo, deitados nus em um jardim florido. Dessa vez não transavam, apenas de olhavam e acariciavam os rostos um do outro.
- Haverá paz para nós, Iason?
               Ele não respondeu. Apenas beijou a testa morena de seu amado e o aconchegou em seus braços.